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Koan e Mushin
Veiculado em 30/07/2003
Monge Ryotan Tokuda
Córdoba, 21-10-83
A aula de hoje é sobre a técnica do koan. O sistema de koans. Esta aula eu já dei em Buenos Aires, e aqui a estou repetindo. Quando se começa a estudar o Zen, nos deparamos com esta palavra: koan. O que é o koan? Originalmente se divide esta palavra em Ko e An. Ko quer dizer público. An significa lei (ou caso). Isso então é Lei pública. Cada país tem suas leis. Os estados e municípios também tem leis diferentes. Por vezes com poderes políticos, pode-se alterar estas leis, mas na verdade, leis devem ser estáveis. HI LI KO KEN TEN. Hi quer dizer aquilo que está errado, Li aquilo que é lógico e certo, ko é a lei, ken quer dizer poderes e ten quer dizer correto. Resumindo, isto significa que uma coisa errada não pode superar a lógica, não pode burlar aquilo que está certo. Mesmo que pessoas que tenham poderes tentem alterar leis, essas pessoas não possuem contudo força para controlar a lei do universo. É nesse sentido, a esta lei pública, que não pode ser alterada, e que todo mundo tem que respeitar finalmente, esta lei a que temos que nos submeter em última instância, é a isto que o praticante Zen tem que finalmente se submeter. Estas perguntas e respostas.
Mas essa palavra koan dentro da escola Soto, é usada com outro sentido. Hoje em dia, este sistema de koan pertence mais à escola Rinzai.
Antes de entrarmos no que significa o koan, expliquemos sobre as cinco escolas do Zen historicamente. Hoje em dia apenas duas escolas continuam a transmitir, a escola Soto e a escola Rinzai. Entre essas escolas, existe intercâmbio até hoje. Eu pertenço à escola Soto, mas também treinei na Rinzai.
As características dessas escolas é que a Rinzai era a escola do Xogun, general, guerreiro, montado a cavalo, comandando as tropas, os cavalheiros, lanças, flechas, e assim a escola Rinzai esteve sempre ligada ao poder daquela época, do imperador, ou então dos guerreiros e governadores. Por isto, os maiores mosteiros da escola Rinzai estão localizados nas antigas capitais, como Kyoto, ou Kamakura. Dentro dessas duas grandes cidades, existem cinco templos oficiais, cinco mosteiros principais e dez mosteiros secundários. Esses mosteiros são antigos palácios do Imperador, que foram transformados em mosteiros. Os mestres de cada mosteiro eram Mestres Nacionais. Por isso a característica da escola Rinzai é imperial.
A escola Soto é de agricultores, lavradores. Como agricultores não chegam perto dos ricos e dos governadores, são pessoas que estão espalhadas pelo interior, pessoas anônimas, trabalhando a terra, sem mostrar autoridade e conhecimentos. Simplesmente trabalharam e assim chegaram a transmitir o ensinamento.
No Japão atualmente a escola Soto tem talvez quinze mil templos pelo Japão todo, enquanto que a escola Rinzai talvez tenha uns três mil. Mas esses três mil da escolaRinzai, estão todos localizados na cidade, nas capitais. E tem que dividir os três mil templos por 17. Porque cada um tem cinco linhas principais, 10 secundárias e cada um é uma linhagem diferente. Mas entre eles existe intercâmbio. Uma outra característica da escola Rinzai, é que eles utilizam o koan durante a meditação. A escola Soto durante a meditação não se utiliza do koan, mas sim do método Shikantaza (apenas sentar). Por isto, o treinamento Rinzai é muito agressivo, forte. Os mestres e os veteranos apertam o praticante até o canto, até o praticante começar a explodir. Assim é muito importante encontrar o mestre correto, porque senão o praticante fica louco.
A escola Soto não tem este tipo de coisa, treina simplesmente como na época do Buda, sentando, naturalmente, e quando surgem perguntas, indaga-se ao mestre e o mestre responde normalmente, não usando este tipo de koan com palavras paradoxais. Como máscaras estranhas, escondidas, para assustar as pessoas. Por isto a escola Soto é um treinamento muito brando, mas o mestre vê o progresso dos praticantes. Quando o caminho é longo, então é que se vê realmente a força do cavalo. Podemos assim ver se a força de vontade é verdadeira ou não, na continuação do treinamento.
Existem outras seitas que desapareceram na história, que acabaram sendo assimiladas por estas duas escolas principais, porque quando não aparece um bom discípulo, a escola termina. Por isto, a qualidade do mestre correto, bom ou não, grande ou pequeno, depende de seus discípulos. Mesmo que o mestre seja muito inteligente, muito famoso, isto não quer dizer que ele seja grande. Se ele não conseguir criar discípulos realmente bons, então não se trata de um bom mestre. Assim, para não terminar sua linhagem, cada mestre dá atenção para a criação discípulos. Quando o discípulo ainda está sentindo muito agradecimento para com seu mestre, ele ainda é apenas um discípulo secundário. Quando o relacionamento entre mestre e discípulo é como de inimigos talvez então esse discípulo possa transmitir o Dharma.
Se o discípulo tem a força e a mesma altura do mestre, de ombro a ombro, ele tem somente a metade da força do mestre. Se o discípulo conseguir subir nos ombros do mestre, ele pode realmente transmitir o ensinamento. De qualquer modo, mundialmente o Zen está se espalhando e podemos enxergar que linha de mestres estão ficando. O Zen foi apresentado ao Ocidente através dos livros de Daisetz Suzuki, mas prática mesmo existia muito pouca, era só muita leitura. Mas hoje em dia, esta moda já passou, e no mundo ocidental o Zen começa a deitar raízes.
Entre os mestres existe a escola Rinzai e a escola Soto, que tratam de disseminar o Zen. Por isto, quando encontramos com um praticante Zen, a primeira pergunta que fazemos é sempre a seguinte: “Com quem você está praticando?” E se ele responder: “Estou aprendendo sozinho, através de algum livro,” isso não quer dizer absolutamente que esta pessoa seja um praticante. A segunda pergunta talvez possa ser, “De onde, de que mosteiro você provem?” “Quantos anos?” Com isto já podemos saber o nível mais ou menos deste praticante. Disso ninguém pode escapar. “Estou treinando com o Monge tal, dez anos, cinco anos,” então já podemos saber, com os mestres tal e tal durante três anos, então já não mas se respeita. Estas coisas entre nós são como se fossem um cumprimento. A qualidade do mosteiro, todos os praticantes sabem, que tipo de treinamento, que tipo de sesshin, que tipo de zazen estão fazendo. Essas coisas se espalham entre os praticantes, mesmo pessoas de longe já sabem. Hoje, aqui, no primeiro retiro em Córdoba, Argentina, vocês têm a responsabilidade de escolher o mosteiro, para realizar esse Zen da Argentina, que não pode ser uma coisa ruim, tem que ser muito bom, tem que ser o melhor. Um verdadeiro praticante que esteja de passagem, com uma só olhada, já sabe tudo sobre esse mosteiro. Por isto, os diretores, de certa forma têm a responsabilidade de melhorar cada vez mais.
É bom estarmos também conscientes das características de outras escolas, como a escola Igyo, que foi fundada por dois mestres, Issaan e Gyosan, por isso essa escola tem a característica de pai e filho, competindo uma coisa com outra. Quando o pai diz uma coisa, o filho completa aquilo, e assim se forma o koan. A escola Hogen tem a característica de flechas que se encontram em meio ao ar. Usam muitos símbolos do cosmos. Entre eles, quem sabe, sabe; quem está de fora, não entende nada do que se está passando. A escola Unmon é considerada como a escola do imperador. O imperador geralmente está no palácio, e onde está o imperador, tem a bandeira. Vendo aquela bandeira sabemos que ali está o imperador, mas não se vê ninguém na floresta. É como se pela floresta afora pudéssemos ouvir o barulho de uma carruagem, mas a carruagem mesma não pudéssemos ver. Por exemplo, Mestre Unmon falava sempre somente uma palavra: KAN. Esse é um tipo de ideograma. Se lhe perguntassem, “O que é o Zen?” Ele responderia, “KAN.” Somente isto. O que é KAN? Quer dizer que tudo está manifestado. Quando o cavalo relincha, riiiiiinch, se nos perguntássemos o que é o caminho do Buda, poderíamos dizer, YIIIIEEE. Este é o koan mais difícil de se ultrapassar. “O que é Buda?” “KAN!” Isso é como uma barreira de alfândega, numa fronteira. Temos que passar por esta barreira, por este KAN.
É bom termos consciência de como foi que surgiu este sistema de koans. No diálogo entre Bodhidarma e Eka, quando Eka disse, “Mestre minha alma não consegue achar a calma, por favor a pacifique.” E Bodhihdharma respondeu: “Onde está tua alma? Traga-a aqui que eu a pacificarei!” Eka disse, “Mestre, busquei minha alma e não a achei jamais.” Bodhidharma finalizou, “Então eu já a pacifiquei para ti.” Com estas palavras de Bodhidharma, Eka teve um súbito despertar.
Nesse koan de Bodhidharma, o primeiro Patriarca na China, ele está conversando com o segundo Patriarca, Eka. No dia 8 de dezembro, Eka subiu o Monte Su procurando o mosteiro de Shao-lin. Era inverno e fazia muito frio, ventava muito, e Eka bateu na porta pedindo para ser atendido, mas Bodhidharma disse, “Este caminho é muito árduo, apenas com orgulho, e com pouco conhecimento, você não conseguirá absolutamente nada. Melhor desistir disto.” E desta maneira, virou a cabeça para a parede e não mais falou, não prestando mais atenção a Eka. Eka ficou de pé, na porta, até de madrugada. Começou a nevar, e a neve subiu até sua cintura. Ao raiar o sol, Bodhidharma virou sua cabeça e disse: “O que esperas, que estás de pé aguardando até agora?” E com isto começou o dialogo que foi relatado acima. Surgiu então este koan. “Traga tua mente até aqui, que eu a pacificarei” e Eka disse, “Tenho procurado minha mente, mas o fato é que não a encontrei até agora.” E Bodhidharma:“Então eis que pacifiquei tua mente.” E Eka atingiu a iluminação. Este é o começo dos koans, de onde surgiu este sistema, mas ainda não era um sistema de treinamento.
Existe um outro koan, entre Nangaku e Eno. Eno é o sexto Patriarca, Hui-neng. “De onde você vem?” Eno perguntou a Nangaku. “Venho de Suzan.” disse Nangaku. “Quem é aquele que assim vem?” indagou de novo Eno. Nanagaku não conseguiu responder à pergunta de Eno e durante oito anos meditou sobre este assunto, até que enfim encontrou a resposta. “Se eu lhe disser o que é que assim vem, já não mais seria isto.”
Este tipo de pergunta, “De onde é que você vem?” “Do monte Saho-Lin.” “O que é que vem assim?:” Ele não está perguntando donde ele vem, e sim, “Quem é aquele que vem assim?” Isto, o que é isto? O que é que vem? Não está perguntado o nome do lugar de onde ele vem, não é nada disto. Está perguntado o que é aquele que vem desta forma. Não é aquela identidade do “eu”, mas este tipo de pergunta é para quebrar isto tudo. Assim fica colocada a questão do ego, que está ligada com os cinco skandhas. Que são o corpo, a percepção, a consciência, a vontade e a memória. E assim surgiram muitos koans, então o koan podem ser as dúvidas de cada praticante, com o questionamento do mestre para o discípulo para que reconheça aquele “eu verdadeiro”. Há um livro que narra 1700 histórias de mestres (histórias de transmissão). Por isto, oficialmente existem 1700 koans. Na verdade talvez mais de 5400 (em outros registros). Mas não precisamos nos preocupar com isto, porque o koan é classificado segundo categorias.
Pergunta: Com se trabalha com os koans? Com estágios como no livro “Os três pilares do Zen” de Philip Kapleau?
Resposta: Exatamente, estas categorias de koans. Quando um praticante procura um mestre Rinzai, hoje em dia, o mestre em primeiro lugar já dá o primeiro koan. Porque o surgimento dos problemas e das dúvidas dos praticantes podem ser achados dentro deste sistema de koans. Na origem, antigamente, o koan era a própria dúvida que a pessoa tinha em relação à vida. Mas hoje em dia, a pessoa ao chegar recebe um koan. Para que com isto surja uma dúvida dentro deste praticante. Porque o koan, como vocês sabem, é muito paradoxal, para que possa limpar todos os conhecimentos que anteriormente possuíamos. Este sistema de koans foi organizado pelo Mestre Kahuin (cerca de 1600), durante muito tempo, quinhentos anos, não havia aparecido um mestre como ele. E começou a organizar todos os tipos de koans que existiam até então, e assim surgiu a sistematização.
São divididos por categorias, a primeira se chama HOSSHIN. A tradução desta palavra, em sânscrito, é Dharmakaya, que aproximadamente quer dizer, corpo do Buda cósmico. Este é o primeiro tipo de koan que o praticante precisa ultrapassar. Passando este koan, aí realmente se inicia o treinamento Zen. Há quatro tipos de casos, como o cachorro de Joshu, o carvalho do jardim da frente, o rosto original do sexto Patriarca e o som de uma só mão. Estes casos são considerados koans Hosshin, para se conseguir através destas, a primeira experiência Zen, o corpo do Buda cósmico. Mas o processo mesmo como funciona o koan, é algo que ninguém explica para ninguém,. Só pode existir na verdadeira transmissão de mestre para discípulo. Esta conversa ou mondo, perguntas e respostas, de mestre e discípulo, não tem que ser sabida por uma outra pessoa, porque cada pessoa está passando seu processo individual de treinamento. Por isto atrapalha quando a pessoa fala sobre isto. Não somente atrapalha como também pode estragar. O único livro que sobre isto discorreu até agora foi justamente este Três Pilares do Zen de mestre Kapleau. Isto foi dirigido para a mentalidade ocidental.
A segunda categoria de koans é o KIKAN, cuja tradução seria, função de vida. Com a primeira experiência de Hosshin, o aluno teve o kensho, e kensho quer dizer, Ken, é ver, e sho é natureza. Kensho significava originalmente iluminação. Mas hoje em dia, kensho, não quer dizer iluminação absolutamente. Eu conheci um mestre que passou por todos os koans: uma pessoa lhe indagou: “O senhor já ganhou a iluminação?” Ele respondeu: “Eu tenho a iluminação de samadhi em um umbigo de uma pulga.” Hoje em dia o sistema de koan do Zen é como se fosse uma escadaria. Quando se passou por um koan, então vem outro, e assim por diante. Antigamente, com o kensho obtido, já se (considerava que) passava por tudo, se considerava iluminação.
Por esta razão, eu dou muita importância à dúvida individual de cada praticante. A dúvida que é própria de cada um. Esta dúvida não tem o sentido de somente duvidar de algo, na verdade, uma dúvida que vem do fundo, de uma essência. Neste caso, a pessoa tem que resolver este problema, se resolver isto, está resolvendo tudo. Por isto, ele vai seguir o caminho. Até que resolva isto. Mas este tipo de koan, que aprendemos no sistema de koans, de certa forma é emprestado, é uma dúvida emprestada. Por isto a pessoa não tem tanta urgência ou necessidade de resolver. Mas, se continuar o treinamento com este sistema de koans, se pode chegar lá.
NR: Mushin: não mente (ausência de cogitação, de julgamento, o inconsciente)
Revisado por monge Genshô em 30/07/2003, parênteses do revisor.
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