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A Talidade
Veiculado em 06/11/2006
Palestra ministrada por Monge Genshô para a Comunidade Zen Budista de Florianópolis.
Em 23 de setembro de 2006.
Decupada da gravação e digitada por Jane Denkô.
A Talidade
Nós vamos falar hoje sobre a Talidade.
Talidade é uma palavra nova em português, um neologismo. Ele pretende traduzir a expressão inglesa suchness. Poderíamos explicar isso como as coisas tais como realmente são. Em primeiro lugar nós devemos compreender que não vemos ou percebemos nenhuma coisa no universo senão através dos nossos sentidos. Podemos tomar o nosso sentido mais aguçado nos seres humanos, o sentido da visão. A nossa visão vê as tábuas, desse assoalho. Mas nós vemos o que realmente são as tábuas quando estamos olhando? Não.O que nós estamos vendo é um dos aspectos perceptíveis sobre as tábuas deste assoalho. Ou seja, as nuvens de átomos que formam a madeira predominantemente carbono, agrupadas de uma determinada forma, através de uma concentração de energia imensa, que é a matéria, reflete alguns dos raios do espectro eletromagnético na faixa da luz visível. E estes reflexos destes fótons batendo na madeira chegam até o nosso olho, entrando no olho, batem na retina. Este pequeno aspecto de todo espectro eletro-magnético, bem estreito no espectro total, impressiona nossa retina e é transformado em sinais nervosos através do nervo ótico. Vão até o nosso cérebro, ao centro da visão, aonde são interpretados por um software específico que se traduz numa determinada impressão nos nossos neurônios a qual é julgada de acordo com as nossas impressões anteriores de visão e , interpretada, nos dá uma sensação de que estamos vendo madeira no assoalho.
Então, existe aqui, nesta descrição, uma imensa variedade de filtros que leva até esta impressão do assoalho que nós estamos vendo. Daquilo que o assoalho reflete vemos apenas uma parte minúscula e mesmo assim esta parte minúscula é filtrada através de um mecanismo de visão, de transformação em impulsos neuroquímicos e elétricos que no nosso cérebro se transformam nessa sensação.
Isso sempre foi um assunto importante para o budismo.O que é o contato, o que é sensação, o que é percepção, o que é consciência. Então tomamos consciência da existência dessa madeira. Mas, pelo que vocês podem deduzir desta descrição, aquilo que nós vemos da madeira não é mais do que uma sombra, uma interpretação da madeira e muito menos do que a madeira realmente é. Podemos interpretar o fundo do mar através de um sonar refletindo ondas sonoras e ver como é que é o fundo do mar. É outra maneira de perceber uma coisa. A outra, ouvindo o seu som.(neste momento Monge Genshô bate no assoalho)O som dessa madeira, o que é? Vibrações no ar, sonoras, que chegam até os nossos ouvidos, vibram nossos tímpanos, são transmitidas através do ouvido médio até o ouvido interno, vibram cordas sonoras no caracol do ouvido interno e são transformadas de novo em sinais nervosos pelo nervo auditivo e são transformadas dentro do cérebro em interpretação. Através desses filtros de impressões diferentes tomamos conhecimento do que o mundo aparenta ser. Mas, onde quero chegar é: não vemos as coisas tais como elas são, mas apenas temos impressões parciais interpretadas de tudo.
Nada é verdadeiramente aquilo que parece ser para nós. Então nós como seres humanos, vivendo no universo, usamos o nosso corpo para perceber o universo em volta, temos uma sensação de que conhecemos uma realidade, os outros, as coisas, os objetos, nós temos a sensação de que conhecemos essa realidade. Na realidade vemos apenas sombras que os objetos projetam. Não sabemos o que eles realmente são e é impossível saber o que eles realmente são através desses nossos órgãos de percepção. Sabemos que as outras pessoas percebem de forma muito semelhante a nós, por isto podemos conversar a respeito das coisas. E quando descrevemos um sentimento, mesmo sutil, através de uma poesia ou quando fazemos música e vemos que os outros se emocionam com a mesma coisa que nós, percebemos que eles têm o mesmo tipo de aparelho de percepção e por isto podemos conversar a respeito desses sentimentos que nos desperta o mundo em volta.
Todos nós achamos as flores lindas e o perfume das rosas delicioso. Então essas nossas percepções são semelhantes. Mas de novo, nós não sabemos o que as coisas realmente são. Por quê? Porque elas são percebidas através de filtros. A pergunta é: é possível a talidade? É possível percebermos as coisas tais como são? A resposta é sim, é possível. É possível perceber as coisas tais como realmente são, mas não através das interpretações da nossa mente. Só é possível perceber as coisas como realmente são através de uma percepção não elaborada, pensada, ou julgada.
Portanto, a talidade é perceptível por nós? Sim, mas não com os nossos olhos normais e sim retirando os olhos do nosso rosto e colocando outros olhos, os olhos de Buda , com eles podem se ver as coisas tais como são porque estão completamente isentos de qualquer julgamento, de certo ou errado, bom ou ruim, dos opostos, das dualidades e das interpretações do nosso software mental.
Quando nós nos sentamos para meditar estamos tentando ficar aqui agora sem interpretações, por isso as instruções são: não julguem, não pensem, bom ou ruim, certo ou errado, sobre nada que lhe ocorra, simplesmente volte para aqui e agora e perceba as coisas além do pensar e do não pensar. Sinta que você está aqui agora, se você der um salto você então verá como as coisas realmente são, e não tem nada a ver com uma descrição. Nada poderá ser descrito, nada poderá ser dito à respeito porque se nós a descrevermos a estaremos diminuindo porque de novo estaremos traduzindo para palavras aquela coisa que é indescritível. Então um conhecimento perfeito é possível, mas ele só pode vir de dentro e não pode vir de fora através das informações e das interpretações de nossos orgãos sensoriais e seus aparatos mentais. Isto é o que eu queria dizer sobre talidade.
Monge Genshô: Perguntas. Pode ser sobre outros assuntos dentro do budismo.Temos pessoas novas.As perguntas das pessoas novas são as melhores.
Pergunta: Eu vim aqui para ver se eu consigo ficar um pouco parada, sou muito agitada...
Monge Genshô:Como ficou parada então?
Pergunta:Foi um sufoco,mas consegui.
Monge Genshô: Você conseguiu porque estávamos sentados juntos. Porque havia outras pessoas, e isto é o significado da Sangha. O grupo proporciona uma força que nos permite parar. Se você estivesse sozinha, talvez em cinco minutos tivesse se levantado. Mas aqui então é possível ficar. Todos são iguais a este respeito. Mas se começamos a praticar, com o tempo adquirimos a habilidade de fazer meditação sozinhos também e aí podemos nos acalmar, serenizar esta mente que não pára.
Pergunta: Talidade então seria a condição para a quebra das ilusões . O aprofundamento da prática permite você vislumbrar momentos de talidade. Mas a quebra das ilusões pode gerar também um sentimento de desencanto, um sentimento desconfortável, não é?
Monge Genshô: quando surge este sentimento desconfortável de desencanto é porque não fomos longe o suficiente.Pode surgir, por exemplo, na prática, um sentimento de grande tristeza. Em geral o sentimento que surge primeiro é de alegria e contentamento. Os sentimentos de tristeza surgem mais adiante, sentimentos de grande tristeza com o sofrimento do mundo, com o fato da vida na terra ser tão cheia de coisas insatisfatórias ou mesmo de maldades. Agora, isto surge porque o praticante está imerso na noção de sujeito e objeto. Então ele aqui está vendo o sofrimento lá nos outros seres. É necessário ir mais fundo porque indo mais fundo você ultrapassa a noção de sujeito e objeto. Ultrapassando a noção de sujeito e objeto surge uma noção de sacralidade de toda a existência e uma percepção de perfeição de tudo, mesmo o que parece mau, como perfeito. Dando um exemplo mais claro: nós olhamos para a vida humana com seu sofrimento, morte, desgraça e apodrecimento e todas as coisas que acontecem conosco, nós olhamos isso como terrível. No entanto essas mesmas pessoas que olham o sofrimento e a morte dos seres humanos e se entristecem, andam numa floresta no outono, quando as folhas caem, secam, apodrecem e morrem, olham para tudo como muito lindo. Uma visão iluminada verá tudo o que acontece com os seres humanos, mesmo a morte, mesmo o desfalecimento, mesmo o apodrecimento, tudo, como parte de um ciclo e um processo, como quando olhamos a floresta no outono. Sabemos que flores novas nascerão na primavera. Que as árvores todas ficarão secas, mas que isso não é triste. É muito lindo! E é muito lindo também quando a primavera surge e as flores novas surgem. Embora olhando para essas folhas saibamos que elas cairão, morrerão. Nós só vemos o sofrimento e a infelicidade no mundo porque não enxergamos o ciclo e o processo. Nós olhamos a vida com os nossos próprios olhos e vemos o sofrimento e a morte dos outros, nós vemos o espelho do que vai acontecer conosco, mas somos incapazes de enxergar todo o ciclo. E o ciclo completo não é triste. Ele é o que é sem nenhuma interpretação. Isso é talidade também. As coisas são tais como são, já perfeitas em si mesmas. Então tudo que nós vemos assim com desencanto é também uma interpretação e uma ilusão. Por isso a mente iluminada vê beleza e é profundamente feliz porque supera toda tristeza. No Sutra do Coração toda a dor e agonia desaparecem quando o bodhisattva vê a vacuidade. E enxergando a vacuidade dos agregados, vendo que tudo surge no vazio, quando o bodhisattva vê essa vacuidade, vê que tudo é fenômeno, então ultrapassa toda a dor e agonia. É difícil, eu sei, é muito sofisticado.
Pergunta: Alguns autores que eu li falam da necessidade, em algum momento da jornada de ter um mestre.Seria pelo fato de que mesmo para uma prática aplicada, diligente, disciplinada em algum momento aparecem obstáculos que podem afastar da prática?
Monge Genshô: Pode ser assim. E também pode acontecer outra coisa. Alguém pode, por exemplo, ver o desencanto, ver o sofrimento e mergulhar numa profunda consciência daquele sofrimento e como alguém que está preso em um redemoinho não sair mais. Ele chegou até um determinado ponto de percepção. Foi um crescimento espiritual, mas quando chegou naquele ponto houve uma estagnação. É necessário chegar até o mestre ou um bom amigo espiritual, um professor, se você tem confiança nele e fizer uma pergunta e receber um pequeno empurrão isto pode ser suficiente para sair daquele redemoinho e começar a trilhar o caminho de novo. Às vezes uma frase pode nos tirar de um grande sofrimento espiritual, de uma grande estagnação espiritual.
Pergunta: Às vezes começamos a perceber as coisas de maneira diferente ao meditar.E o fato de percebermos diferente nos frustra...
Monge Genshô: Do ponto de vista espiritual para que possamos conseguir obter algo é necessária uma relação profunda que não é realmente mais de amizade, mas é uma relação de confiança espiritual. Se você tem confiança, aquela pessoa pode ajudar você. Então existe algo de entrega nisso. Quando não existe essa confiança você quer discutir e qualquer pessoa que tenha opiniões ou discuta não pode obter daquele orientador nada em especial. Um mestre pode não ser acreditado. Isso é comum, então no Zen o que nós vemos com freqüência, na própria literatura Zen, é que os mestres são muito restritos em aceitar discípulos e é normal um candidato ser recusado porque se ele não chega com atitude de aprender, não pode aprender. Não pode aprender de maneira alguma. Quando um aluno chega num dojo de artes marciais, por exemplo, com a postura de: eu sei ou eu tenho uma técnica, não existe nenhuma opção para ensiná-lo, exceto bater nele para que ele crie uma atitude de humildade. Mas espiritualmente não se tem a facilidade de demonstrar isso como nas artes marciais, então o normal é simplesmente recusar o aluno.
Palestra ministrada por Monge Genshô para a Comunidade Zen Budista de Florianópolis.
Em 23 de setembro de 2006.
Decupada da gravação e digitada por Jane Denkô.
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