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Introdução
O Motorista
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Ele
jogou minha mala no carro, sorriu
contrafeito, e perguntou:
- Muito frio no sul?
Respondi automaticamente:
- Como aqui.
Pensei de imediato, enquanto me acomodava no carro da empresa para a qual
eu prestava consultoria, o quão pesadamente funcionários como ele sentem
o clima empresarial, e tratei de pô-lo à vontade, fazendo uma pergunta
e outra enquanto nos preparávamos para partir:
- Há muito tempo você trabalha aqui? Como é o setor dos motoristas? Você
gosta desse trabalho?
O carro acelerou visivelmente, enquanto o olhar do motorista indicava
seus pensamentos girando no mesmo ritmo. Fiquei quieto, olhando a autovia
serpentear, aguardando o que viria. Após alguns segundos, sua voz chegou
ligeiramente mais alta do que antes:
- O senhor sabe como é, cada um puxa para um lado, tem gente que não cuida
dos veículos e depois estoura em cima dos outros. Meu chefe só quer estar
bem com o gerente de transportes...
Enquanto ele contava a história normal do jogo de esconde-esconde das
empresas, eu mergulhava em recordações.
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O
diretor indignado porque os funcionários da fábrica haviam quebrado duas
máquinas valiosas em um dia. Eu havia comentado com ele que não era boa
idéia comprar um carro novo e estacioná-lo, como um acinte, bem em frente
aos operários de quem ele havia cortado vantagens a título de redução
de despesas:
- Ora, Chalegre! É incrível que um homem como você não compreenda! A empresa
pode estar até necessitando enxugar despesas, mas minha situação particular
é boa! Nada tem a ver uma coisa com a outra! E eu ali na sua frente, o
ar condicionado zumbindo, a enorme mesa dos diretores diante de nós, tão
vazia de objetos como ele se deixava ficar vazio de compreensão para com
os sentimentos dos operários. Eu podia imaginar os pregos descendo pelo
equipamento delicado, o quebrar das engrenagens de precisão, a vingança
silenciosa. E a minha lamentável incapacidade de convencê-lo.
Muitos quilômetros dali, o executivo de contas a lamentar:
- Olhe, aqui nesta empresa, todo o meu grupo ganha igual, se alguém fizer
algo melhor, nem tapinha nas costas, meu amigo!
Tudo que ele queria era algum reconhecimento. Que não viesse sob a forma
de dinheiro, pelo menos que lhe batessem nas costas em público e dissessem:
- Bom trabalho!
Dia após dia a negociar, a tentar fazer o melhor possível, sem nenhum
retorno. Mesmo os caçadores nas tribos primitivas podiam reconhecer os
olhares de reconhecimento pelo seu bom trabalho. O prestígio na hora de
falar ao redor da fogueira. Ele não, trabalhasse bem ou mal, era tudo
a mesma coisa.
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O
carro passou por um posto policial. O motorista franziu os lábios com
um expressão de desprezo:
- Esses aí só pensam em achacar os motoristas. Basta molhar a mão deles
que está tudo bem. Ainda bem que evitam os carros de empresa, pode dar
complicação... Quando chega o fim do ano, ficam enlouquecidos para achacar
quem puderem, querem levar mais para casa.
Imaginei a vida do guarda rodoviário. O senso de grupo separado, a farda
a dizer permanentemente que era de outra tribo, o respeitoso temor dos
motoristas, o poder de multar, de procurar alguma coisa errada. Em casa,
a esposa calada e satisfeita com qualquer dinheiro a mais, sem nenhuma
pergunta, o rosto satisfeito do filho no Natal. A extorsão como modo de
complementar o salário e a certeza de que todos os outros fazem o mesmo,
quem não faz é trouxa. Denúncia? Punição? Nunca tinha tido notícia. Essas
eram as regras do jogo.
A onda de pensamentos levou-me à polícia do Rio de Janeiro e à má idéia
de premiar por bravura cada policial que matasse um bandido. Condecoração,
dias extras de folga e mais uma bonificação. Rapidamente, o número de
mortos começou a crescer. Polícia eficiente, esta! Até que ficasse comprovado
que primeiro se atirava e depois se fazia qualquer pergunta, o instituto
de necropsias já estava atulhado de corpos perfurados.
- A empresa é rica, doutor, continuava o motorista. Se o senhor visse
o que eles desperdiçam! A direção vive falando em economizar, mas quem
está trabalhando só vê compra e mais compra de material que depois fica
estocado, escondido pelos cantos, sem uso. Consultor como o senhor, não
é o primeiro não! Vêm aí, fazem um monte de perguntas, escrevem uma montanha
de papel e depois vão embora. Para mim, esses tais de relatórios são para
encher gavetas! O senhor me desculpe, mas não vejo as mudanças...
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