Introdução
O Motorista
Página: 1 2

Ele jogou minha mala no carro, sorriu contrafeito, e perguntou:
- Muito frio no sul?
Respondi automaticamente:
- Como aqui.
Pensei de imediato, enquanto me acomodava no carro da empresa para a qual eu prestava consultoria, o quão pesadamente funcionários como ele sentem o clima empresarial, e tratei de pô-lo à vontade, fazendo uma pergunta e outra enquanto nos preparávamos para partir:
- Há muito tempo você trabalha aqui? Como é o setor dos motoristas? Você gosta desse trabalho?
O carro acelerou visivelmente, enquanto o olhar do motorista indicava seus pensamentos girando no mesmo ritmo. Fiquei quieto, olhando a autovia serpentear, aguardando o que viria. Após alguns segundos, sua voz chegou ligeiramente mais alta do que antes:
- O senhor sabe como é, cada um puxa para um lado, tem gente que não cuida dos veículos e depois estoura em cima dos outros. Meu chefe só quer estar bem com o gerente de transportes...
Enquanto ele contava a história normal do jogo de esconde-esconde das empresas, eu mergulhava em recordações.

>>
Próxima
Página
   

O diretor indignado porque os funcionários da fábrica haviam quebrado duas máquinas valiosas em um dia. Eu havia comentado com ele que não era boa idéia comprar um carro novo e estacioná-lo, como um acinte, bem em frente aos operários de quem ele havia cortado vantagens a título de redução de despesas:
- Ora, Chalegre! É incrível que um homem como você não compreenda! A empresa pode estar até necessitando enxugar despesas, mas minha situação particular é boa! Nada tem a ver uma coisa com a outra! E eu ali na sua frente, o ar condicionado zumbindo, a enorme mesa dos diretores diante de nós, tão vazia de objetos como ele se deixava ficar vazio de compreensão para com os sentimentos dos operários. Eu podia imaginar os pregos descendo pelo equipamento delicado, o quebrar das engrenagens de precisão, a vingança silenciosa. E a minha lamentável incapacidade de convencê-lo.
Muitos quilômetros dali, o executivo de contas a lamentar:
- Olhe, aqui nesta empresa, todo o meu grupo ganha igual, se alguém fizer algo melhor, nem tapinha nas costas, meu amigo!
Tudo que ele queria era algum reconhecimento. Que não viesse sob a forma de dinheiro, pelo menos que lhe batessem nas costas em público e dissessem:
- Bom trabalho!
Dia após dia a negociar, a tentar fazer o melhor possível, sem nenhum retorno. Mesmo os caçadores nas tribos primitivas podiam reconhecer os olhares de reconhecimento pelo seu bom trabalho. O prestígio na hora de falar ao redor da fogueira. Ele não, trabalhasse bem ou mal, era tudo a mesma coisa.

>>
Próxima
Página

   

O carro passou por um posto policial. O motorista franziu os lábios com um expressão de desprezo:
- Esses aí só pensam em achacar os motoristas. Basta molhar a mão deles que está tudo bem. Ainda bem que evitam os carros de empresa, pode dar complicação... Quando chega o fim do ano, ficam enlouquecidos para achacar quem puderem, querem levar mais para casa.
Imaginei a vida do guarda rodoviário. O senso de grupo separado, a farda a dizer permanentemente que era de outra tribo, o respeitoso temor dos motoristas, o poder de multar, de procurar alguma coisa errada. Em casa, a esposa calada e satisfeita com qualquer dinheiro a mais, sem nenhuma pergunta, o rosto satisfeito do filho no Natal. A extorsão como modo de complementar o salário e a certeza de que todos os outros fazem o mesmo, quem não faz é trouxa. Denúncia? Punição? Nunca tinha tido notícia. Essas eram as regras do jogo.
A onda de pensamentos levou-me à polícia do Rio de Janeiro e à má idéia de premiar por bravura cada policial que matasse um bandido. Condecoração, dias extras de folga e mais uma bonificação. Rapidamente, o número de mortos começou a crescer. Polícia eficiente, esta! Até que ficasse comprovado que primeiro se atirava e depois se fazia qualquer pergunta, o instituto de necropsias já estava atulhado de corpos perfurados.
- A empresa é rica, doutor, continuava o motorista. Se o senhor visse o que eles desperdiçam! A direção vive falando em economizar, mas quem está trabalhando só vê compra e mais compra de material que depois fica estocado, escondido pelos cantos, sem uso. Consultor como o senhor, não é o primeiro não! Vêm aí, fazem um monte de perguntas, escrevem uma montanha de papel e depois vão embora. Para mim, esses tais de relatórios são para encher gavetas! O senhor me desculpe, mas não vejo as mudanças...

>>
Próxima
Página