Capítulo 15
A Teoria dos Jogos
Página: 1 2 3

Toda a lógica da implantação de um sistema de trabalho, utilizando-se o princípio dos interesses coincidentes, repousa na possibilidade de se mudar as regras do jogo em vigência. Quando a regra é simples, é fácil mudá-la e prever o resultado.
É o caso do vendedor ganhando comissão mais baixa para um determinado produto - ele simplesmente passa a evitar esse produto.
A alteração da regra é fácil: basta equiparar as remunerações, ou, se desejável, pagar mais ainda naquilo que se quer incentivar.
No entanto, existem problemas de complexidade muito mais alta. Quanto mais aumentar o número de variáveis envolvidas, mais difícil se torna o problema. E a dificuldade não cresce de modo aritmético - ela cresce geometricamente, como no problema do papel dobrado. (capítulo 10).
Para exemplificar, vamos tomar o problema conhecido como truelo. É um caso típico da teoria dos jogos; inclui a análise dos interesses dos outros participantes, exatamente como acontece no tipo de problemas que precisamos solucionar e dos quais este livro tem tratado.
Três homens resolvem solucionar uma grave dissensão por meio de um truelo. Um duelo a três. Ocorre que A é um mau atirador. Ele acerta uma vez, em cada três ocasiões que atira. B é mediano, acerta duas vezes em cada três. C é infalível, atinge o alvo três vezes em cada três.

>>
Próxima
Página

   

Para equilibrarem um pouco as oportunidades, eles decidem que A irá atirar em primeiro lugar. Depois virá B e, em seguida, C - e continuarão a atirar sempre nessa ordem, até que reste apenas um vitorioso.
Nesse ponto, surge a pergunta: qual é a conduta mais favorável para A? Como ele deve atirar para melhorar suas chances de sobrevivência?
Se A atirar em B e errar, B disparará sobre C, a maior ameaça para si; acertando e eliminando C, de novo será a vez de A, que tem 33% de chances de acertar B, o qual, em seguida, sobrevivendo, atirará em A com 66% de probabilidades.
Se A acertar B, o seguinte a atirar será C, que, com certeza, eliminará A. E ainda, se A disparar sobre C e errar, repete-se então o mesmo raciocínio inicial. Se, entretanto, acabar com C, B se voltará contra ele, com 66% de chances de vitória. Conclui-se que a pior coisa possível para A é acertar em alguém. A melhor conduta é atirar para cima. Eliminado um dos adversários, as chances e a vez voltam para ele.
Isso demonstra que basta introduzir um jogador a mais e variações de competência, para que tudo fique muito mais complexo e a melhor solução, oculta. A solução mais propícia é mais difícil de ser encontrada porque as considerações são em vários passos e é preciso considerar-se os interesses dos outros participantes. Mais ainda, a conduta mais produtiva pode ser aparentemente contrária ao senso comum.

>>
Próxima
Página

   

A derrapagem na curva

Quando eu explicava uma metodologia de metas para o diretor de uma empresa, ele criou uma imagem bem exata:
- Essa questão de não aumentar as metas para assim obter mais da equipe contraria o que estamos acostumados a pensar. É como ensinar uma pessoa a tirar um carro de uma derrapagem em uma curva. Se pisar no freio, o carro sai pela tangente e o acidente é certo. Ao contrário do que o instinto diz, o que se precisa fazer é acelerar levemente e procurar o raio máximo para controlar o veículo.
E neste exemplo, estamos lidando com apenas uma atitude. Quando é necessário alterar as regras do jogo para toda uma sociedade, a habilidade tem que ser grande. Mas pode-se ir desmontando, item por item, os estímulos que conduzem a interesses divergentes entre os indivíduos e a organização.
Ora, os jogos se dividem em dois grandes grupos: os cooperativos e os não cooperativos. Existem os jogos de duas pessoas em equação cuja soma é zero, como o xadrez. São jogos em que, quando um ganha o outro perde, quanto piores forem as decisões de um, mais favorecido será o outro. Além disso, os jogos podem ser disputados uma vez, ou muitas. Há grande diferença aí, porque um combate repetido permite o estabelecimento de compromissos mútuos.
Coisa que é possível acontecer mesmo em guerras, veja-se uma convenção como a de Genebra, acordou-se a proibição de gases nas batalhas e ambos os lados se submeteram a ela, o que sucedeu na Segunda Guerra Mundial sem violações(30).

>>
Próxima
Página

 

 

 

 

 
30. É claro que ambos os lados tinham a possibilidade de retaliar a uma infração a regra acordada. Se assim não fosse o acordo fracassaria. A mesma possibilidade impediu o uso do poder nuclear para nosso bem coletivo. voltar ao texto