Capítulo 14
A Meritocracia
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O vendedor expressava sua decepção para com suas chances futuras na companhia:
- Pois olhe, não tenho a menor idéia de como eles decidem as promoções. A gente nunca sabe de nada, é tudo surpresa. Tem até caso de quem é promovido, todo mundo sabe que não vai dar certo, e depois que descobrem o fracasso, rebaixam o cara para a função anterior mas não podem mais mudar o salário. Fica uma bagunça completa.
Parece algo insólito, não é? Porém é um relato real. É inconcebível que grandes empresas ainda mantenham esse grau de subjetividade como método de promoções. Não há sinal de interesse coincidente entre essa atitude gerencial e os objetivos da organização. Seria bom examinarmos o porquê, onde estão as forças que fazem com que tal conduta sobreviva. Mais uma vez, o modelo menos recomendado é o da administração pública e seu processo de nomeações em cargos ditos "de confiança". É bom examiná-lo com atenção porque as motivações internas são as mesmas em ambos os casos.
O principal motivo pelo qual alguém é nomeado para um cargo "de confiança" está explícito na expressão. Não se trata, em absoluto, de selecionar alguém competente. O objetivo é ter alguém em uma posição, que detém algum poder, que não hesitará em apoiar, em qualquer circunstância, aquele que o indicou para o cargo.

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Obterá facilidades para o que, ou para quem o chefe pedir e, importantíssimo, criará todas as dificuldades possíveis para aquilo que não interessar a seu padrinho. Desta maneira, ele potencializa o poder do chefe. Isso significa que, a uma palavra sua em uma dada direção, as coisas se resolverão magicamente, enquanto que, a uma palavra igualmente sua, porém na direção oposta, obstáculos burocráticos invencíveis se erguerão no caminho de seus desafetos. Este é o motivo pelo qual os políticos tanto lutam por nomeações. Ter cargos à disposição e nomear sua gente para ocupá-los é aumentar sua área de poder na máquina pública.
É evidente, portanto, que interessa ao bem público que os cargos de nomeação por indicação sejam reduzidos ao mínimo. Basta transformar o máximo possível de cargos de confiança em funções técnicas com contratação profissional. É importante notar aqui que a estabilidade em cargos trabalha contra o princípio dos interesses coincidentes. Nada melhor que saber que não pode ser dispensado para reduzir o esforço de alguém ao mínimo. O prêmio aqui é o que se chama de sinecura, um cargo com remuneração razoável com o mínimo de exigência e, ainda por cima, permanente. Como já demonstramos, regras para interesses coincidentes têm que trabalhar as duas pontas da questão. Prêmio pelo desempenho que se deseja e punição imediata para o comportamento inconveniente para com a organização, seja pública ou privada.

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Ora, dentro das empresas, o que sucede é que as chefias tentam manter dentro de suas atribuições a escolha dos que preencherão as funções. A situação é muito melhor que no serviço público, pois ali existe um interesse em competência, mas muitas vezes existe contaminação. Há escolhas por motivos de simpatia, tradição de lealdade pessoal, confiança, enfim, por uma variedade de motivos. Está lá dentro, inserida, a mesma motivação existente nas nomeações políticas. A diferença é o grau de intensidade.
Assim, interessa às organizações privadas criar sistemas que reduzam as escolhas eivadas de interesses pessoais por outros, que visem promover os funcionários competentes. Uma vantagem subsidiária é reduzir os compromissos espúrios de origem pessoal por vínculos com o processo de escolha por mérito. Este, sim, de interesse fundamental para a empresa. Como deveria ser um sistema assim?

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